Não, o pop latino não começou com Bad Bunny. Outros asfaltaram rua para ele erguer sua 'casita'

Bad Bunny se apresentou pela primeira vez no Brasil nesta sexta (20) Jorge Silva/Reuters É tentador olhar para o "baile nostálgico" de Bad Bunny em São Paulo...

Não, o pop latino não começou com Bad Bunny. Outros asfaltaram rua para ele erguer sua 'casita'
Não, o pop latino não começou com Bad Bunny. Outros asfaltaram rua para ele erguer sua 'casita' (Foto: Reprodução)

Bad Bunny se apresentou pela primeira vez no Brasil nesta sexta (20) Jorge Silva/Reuters É tentador olhar para o "baile nostálgico" de Bad Bunny em São Paulo e acreditar que o Brasil finalmente rompeu sua histórica bolha de isolamento apenas por causa dele. O porto-riquenho esgotou os ingressos de seus dois primeiros shows no país, no Allianz Parque, neste fim de semana. Mas a verdade é que outras vozes latinas pavimentaram a rua onde Benito construiu sua "casita". Em 2010, quando escrevi sobre uma "onda latina" para a edição brasileira da revista "Billboard", o cenário era de resistência. Naquela época, o passaporte para o sucesso em espanhol quase sempre vinha carimbado pela televisão. O fenômeno RBD era o exemplo mais impressionante: um sucesso que saiu direto do SBT para as paradas. Sem a "forcinha providencial" das novelas, como o Maná em "Mulheres Apaixonadas", a barreira parecia intransponível. O cenário de 15 anos atrás continua atual. Como Sergio Affonso, então presidente da Warner, me disse na época, o Brasil é um país latino isolado por um preconceito que vai além da língua. Havia uma ideia de que música latina era obrigatoriamente "chocalho na mão e rebolado". Enquanto nomes como Alejandro Sanz e Shakira lutavam por espaço nas rádios, o pop rock que não tinha uma figura tão marcante era ignorado ou rotulado como brega. Outra questão é que Shakira se aventurou por hits em inglês para mudar de patamar e virar uma popstar global. Por que shows do Bad Bunny no Brasil são históricos O executivo André Matalon me contou que os produtos latinos eram vistos como "enlatados" e sofriam com o preconceito de quem achava que faltava qualidade à produção vizinha. O cenário era tão fechado que o grande êxito romântico em espanhol nas rádios da década de 2000 acabou sendo de um brasileiro: Alexandre Pires, com "Usted Se Me Llevó La Vida". Tirando casos esporádicos como o colombiano Juanes ou a persistência de nomes como Bruno & Marrone, o mercado se fechava. Historicamente, o mercado brasileiro impôs uma barreira cultural contra o idioma de Cervantes e Luis Miguel ao associá-lo quase exclusivamente a canções mais românticas do que a encomenda. Esse estigma, personificado por ícones como Julio Iglesias, criou uma ideia de que a música em espanhol era sempre "enlatada" ou voltada para a balada sentimental. RBD, Maná e o pop rock de novela RBD: Maite Perroni, Christopher Uckermann, Anahí, Christian Chávez e Dulce María Divulgação O Maná é o caso clássico de como o rock em espanhol precisou da televisão para furar o bloqueio. O grupo vendeu mais de 20 milhões de discos no mundo, sendo 600 mil no Brasil: uma marca impulsionada por trilhas da novela. Em 2003, "Vivir sin aire" virou hino ao embalar o casal Clara e Rafaela em "Mulheres Apaixonadas", um momento que o baterista Alex González definiu como histórico para a banda. A estratégia seguiu com "Labios compartidos" em "Viver a Vida" (2009); e "Lluvia al coração" em "Morde & Assopra" (2011). As canções de novela levaram o quarteto ao Palco Mundo do Rock in Rio. Já o RBD operou em uma escala que pouca gente no pop (latino, ou de qualquer lugar) conseguiu repetir. Foram 2,2 milhões de discos vendidos no país, shows para multidões, e uma força que gerou uma "alfabetização pop latina" na marra. Uma geração inteira de brasileiros aprendeu espanhol para acompanhar os dramas de Anahí e companhia. Como ela mesma me contou, esse sucesso era sentido na pele: o Brasil se tornou o porto seguro para o pop mexicano, criando uma base de fãs que hoje, já adulta, ajuda a sustentar o interesse por nomes como Bad Bunny. Que bonita vizinhança... Jorge Drexler, ganhador do Oscar e o mais uruguaio nome da MPB, me apresentou uma teoria que explica por que demoramos tanto para aceitar um fenômeno como Bad Bunny. Para ele, o Brasil se dá ao luxo da autorreferencialidade: produzimos o que ouvimos e ouvimos o que produzimos. Somos um continente musical que se basta, onde o artista pode fazer a vida sem nunca precisar de um carimbo no passaporte. Marisa Monte e Jorge Drexler Acervo pessoal Marisa Monte Nomes como Belinda e Ximena Sariñana, também atrizes, já tentavam furar esse bloqueio lá atrás, investindo no carinho dos fãs brasileiros para compensar a falta de espaço nas rádios. Com o streaming, a dependência das FMs ficou bem menor, e isso fez a diferença. Bad Bunny talvez seja o ápice de um processo de décadas. Ele não precisou de uma versão em português, de uma novelinha adolescente ou de uma novela das oito para ser compreendido. Ele usou palcos globais como o Grammy e o Super Bowl para expandir seu público: mirou no mundo e acertou no Brasil. A carreira era mais voltada para o reggaeton, mas foi diversificando seu som. Nos últimos anos, principalmente a partir do festejado álbum "Un Verano Sin Ti” (2022), passou a ir mais além do "trapeton". A união do reggaeton com o trap, caracterizado por um rap mais arrastado, soturno, mas com vocais graves e pegada festiva, ganhou a companhia de outros sons dançantes, da salsa à música eletrônica. Essa sonoridade dançante e melódica é a cama para suas letras sobre assuntos que fazem sentido em San Juan ou em São Paulo: desilusões amorosas, bebedeiras, arrependimentos, nostalgia, crítica social... O rapper se beneficia de uma estrada aberta por quem provou, como me disse o ex-Menudo Roy Rosselló, que "amor" significa "amor" em qualquer lugar. A estreia do conterrâneo de Ricky Martin (outro ex-Menudo) no país é a confirmação de que a "marolinha" latina de 2010 finalmente virou o tsunami que muitos já previam. Benito não inventou o interesse do brasileiro pela música em espanhol, ele apenas colheu o que foi plantado por uma linhagem que insistiu em dizer que o Brasil também faz parte da vizinhança.