Dori Caymmi descortina um mundo de belezas em show no Rio com a 'voz de mágoa' amaciada pelo humor corrosivo

Dori Caymmi canta e toca violão em show feito no projeto 'Terças no Ipanema', no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 7 de abril Rodrigo Goffre...

Dori Caymmi descortina um mundo de belezas em show no Rio com a 'voz de mágoa' amaciada pelo humor corrosivo
Dori Caymmi descortina um mundo de belezas em show no Rio com a 'voz de mágoa' amaciada pelo humor corrosivo (Foto: Reprodução)

Dori Caymmi canta e toca violão em show feito no projeto 'Terças no Ipanema', no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro (RJ), na noite de 7 de abril Rodrigo Goffredo ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: Utopia – 56 anos de parceria Artista: Dori Caymmi Data e local: 7 de abril de 2026 no Teatro Ipanema (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2 ♬ “Porto é um parto”, sentenciou Dori Caymmi, fazendo ágil jogo de palavras, ao ouvir o pedido para cantar “Porto” (1975), tema composto pelo artista para a novela “Gabriela” (TV Globo) e gravado pelo grupo MPB4 para a trilha sonora da trama exibida em 1975 com base no livro de Jorge Amado (1912 – 2001). O pedido foi feito por espectador que assistia no Teatro Ipanema, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), na noite de ontem, 7 de abril, à concorrida estreia da temporada do show “Utopia – 56 anos de parceria” no projeto “Terças no Ipanema”, de Flávia Souza Lima. De início, Dori resmungou, disse que a voz já não alcançava os agudos do tema, mas acabou parindo “Porto” após afinar o violão, ampliando o som do instrumento à moda rústica experimentada pelo violonista Baden Powell (1937 – 2000) quando Baden compôs e gravou a toada “O cego Aderaldo (Nordeste)” no álbum “27 horas de estúdio” (1969). E, sim, a voz deu conta. Na abertura do show, com o canto de “Evangelho” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1972), essa voz densa e grave – de tons profundos como os mares desbravados pelo cancioneiro soberano do patriarca Dorival Caymmi (1914 – 2008) – ainda estava um pouco fria, mas já ficou no ponto a partir do segundo número, “Velho piano” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 1982). Pérola lapidada originalmente na voz da cantora Elizeth Cardoso (1920 – 1990), “Velho piano” ficou associada à voz e ao suor de Nana Caymmi (1941 – 2025), irmã imortal celebrada por Dori com o canto da canção “Sem você” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959), do samba-canção “Se queres saber” (Peter Pan, 1947) e do bolero “Resposta ao tempo” (Cristovão Bastos e Aldir Blanc, 1998), três números em que Dori se confirmou intérprete magistral dessas obras alheias, imprimindo sentimento preciso em cada verso. Com a voz e o violão, Dori Caymmi descortinou um mundo de belezas ao seguir roteiro que extrapolou a parceria com Paulo César Pinheiro destacada no título do show. É que o cancioneiro do compositor parece abarcar rios, mares, matas e grandes sertões do Brasil em músicas como “Setenta anos” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2013), “Raça morena” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2022) – “O mais próximo que eu cheguei do sertanejo”, situou com fina ironia – e “Canto brasileiro” (2022), música feita por Dori a partir de poema do primeiro livro de poesias de Paulo César Pinheiro. Toda a beleza desse mundo poético, geralmente interiorano, é potencializada pelo canto do artista, dono de “Voz de mágoa”, como diz o título da canção de Dori e Pinheiro, lançada em disco há dez anos por Maria Bethânia no álbum ao vivo “Abraçar e agradecer” (2016). Corrosivo, o humor ferino das falas de Dori Caymmi entre um número e outro desanuviou clima que poderia ficar demasiadamente pesado diante da carga de tristeza embutida na maioria das canções do roteiro, a exemplo de “Sozinho de nascença” (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2025). Além de provocarem gargalhadas no público, os comentários demolidores de Dori diluíram qualquer possível linearidade desse roteiro que abriu espaço para o lirismo romântico da cantiga “O nome da moça” (Dori Caymmi e Roberto Didio, 2025) e para a vivacidade rítmica do frevo “Ninho de vespa” (1990), duas músicas cantadas por Dori no recente álbum “Utopia” (2025), em tese o mote do show. Enfrentando aos 82 anos os sintomas de neuropatia periférica (“Eu e meu parceiro Paulo César Pinheiro já entramos na fase das comorbidades”, gracejou no início do show), Dori Caymmi caiu bem no suingue baiano de “Alegre menina” (1975) – música que fez a partir de poema de Jorge Amado para a trilha sonora da supracitada novela “Gabriela” – e enfrentou com bravura a melodia e letra caudalosas de “Rio Amazonas” (1990), música tão sublime que, a rigor, nem precisava dos versos de Paulo César Pinheiro. Quando as cortinas se fecharam, após Dori Caymmi ter parido o pedido “Porto”, o espectador estava embevecido diante de tanta beleza descortinada pela voz de mágoa e pelo violão desse artista que honra a nobre dinastia da qual faz parte. Dori Caymmi presta homenagem à irmã, Nana Caymmi (1941 – 2025), no show 'Utopia – 56 anos de parceria' Rodrigo Goffredo